Artigo – geração sustentável

No final do ano de 2015, o atual presidente da FETCEMG – Federação das Empresas de Transporte de Minas Gerais –, Sérgio Luiz Pedrosa, apresentou-me à ComJovem – Comissão de Jovens Empresários e Executivos – e indicou-me para a coordenação do núcleo de Belo Horizonte e Região Metropolitana. Eu, que pertenço a uma geração que é motivada principalmente pelo desafio e quer fazer diferença na sociedade, decidi assumir a função e explico o porquê.

Nasci no início da década de 90 e carrego comigo as características dessa geração comumente chamada de geração “Y” ou a geração do “Por quê? ”. Enraizada em mim, então, está a constante propensão aos questionamentos:

Por que eu tenho que decidir a minha carreira tão cedo?

Por que a felicidade está trelada ao sucesso profissional?

Por que preciso perpetuar os negócios de transporte de minha família?

Por que não posso me divertir trabalhando?

Por que eu precisaria ter cabelos brancos para ser ouvida?

Por que não posso flexibilizar um processo já bem estabelecido e ainda sim ter alta confiança em sua eficiência e eficácia?

Por que não buscamos uma implementação mais rápida de novas tecnologias?

Por que o transporte é visto como um vilão ambiental?

Por que as gerações anteriores têm demorado tanto para perceber que não há rentabilidade econômica sem sustentabilidade socioambiental?

Perceberam o porquê do apelido dos nascidos nos anos 90? Todas essas perguntas, e muitas outras análogas, surgem na cabeça daqueles da geração “Y” que começam a acender para cargos de liderança no setor de transporte rodoviário de carga (TRC) e não aceitam o status quo. Bem, decidi eu mesma buscar algumas dessas respostas e, percebi que esse era também o propósito da ComJovem.

Hei, década de 40, 50, 60 e 70, prestaram atenção?! Não? Então vou repetir. Aceitei esse desafio porque enxerguei um propósito na ComJovem e uma jornada com novas experiências. Sei que muitos leitores já irão me taxar de idealista; mas esperem, vocês também não foram pelas gerações anteriores?

Outra característica interessante da minha geração é não ter vergonha de ser transparente, um valor essencial para nós e, que anda lado a lado com a liberdade. Nesse momento, caro leitor, você deve estar se questionando: “Liberdade? Transparência? Agora eu é que estou com dúvidas. Ana Luíza, nosso foco aqui é o transporte rodoviário e não aeroviário, volte para terra firme”. Reafirmo: liberdade e transparência, sim! Contudo, não da maneira literal com que cada uma dessas palavras pode ser interpretada. Quando digo liberdade refiro-me ao poder questionar conceitos e normas (im)postos pelas altas lideranças de gerações anteriores e fundamentadas em norma hipotética. Como é de se esperar, questiono: Quem deu validade a essa norma e por que não pode ser mudada?

Pois bem, analisando a época em que nascemos, nós, da geração Y, fomos os primeiros a incorporar os avanços tecnológicos e dos meios de comunicação que trouxeram uma alta velocidade de troca de informações e conhecimento. A sabedoria que antes demoraria anos ou talvez até décadas de conhecimento acumulado, passa a ser reunida rapidamente com compartilhamento de experiências e ideias entre os jovens conectados. Por esse motivo, buscamos uma maior transparência e menor hierarquização nas relações, questionamos muito e toda liberdade que isso nos traz faz com que realizemos escolhas que consideramos legitimas na busca da rentabilidade e sustentabilidade do nosso setor de transportes.

Opa! Já me esbarrei novamente na acepção do vocábulo “propósito”. Bem, seu sentido pode ser traduzido parafraseando Dr. Mário Sérgio Cortella: “Qual é a tua obra? O que você vai deixar de legado quando se for?” Isso é propósito, é uma visão transparente na qual eu posso legitimar minhas ações e seguir acreditando no que faço, uma vez que o meu raciocínio trabalhou de forma livre e por minha própria iniciativa. Logo, o propósito que tenho em mim para atuar no setor de transporte rodoviário de carga é a busca pela rentabilidade econômica de maneira sócio e ambientalmente responsável, ou seja, sustentável, dos nossos negócios.

É engraçado que quando falamos em sustentabilidade a primeira coisa que vem nos vem a cabeça é a ideia de natureza e o meio ambiente – que sem dúvida fazem parte disso –, mas, se abrangermos a nossa visão, fica nítido que a sustentabilidade refere-se a algo que se suportar. Quando falamos em crescimento sustentável, estamos falando em aproveitar de melhor forma possível nossas matérias primas e insumos para evitar a entropia e, assim, perdurarmos por anos. Contudo, no caso de empresas, essa preocupação deve ser maior que a do indivíduo comum. Suas ações têm forte impacto na sociedade como um todo.

Uma ideia que já não é mais considerada utópica no presente sistema político-econômico, pois nasceu do próprio capitalismo, é a noção de parcerias entre as organizações – concorrentes ou não –, governos, sociedades e terceiro setor. Essas parcerias podem levar a um leque de oportunidades de serviços, produtos e ações socioafirmativas. Além disso, especificamente para as empresas, parcerias entre essas fomentam a competitividade interna do setor, o que acarreta em uma ainda maior geração de valor para a sociedade. Para demonstrar a importância dessas parcerias – e em paralelo uma visão de proposito por de trás de cada uma – cito, a seguir, 3 exemplos em diferentes âmbitos e como essas interações são essenciais para a sustentabilidade do setor de TRC.

Como exemplo inicial, principalmente no plano da responsabilidade ambiental, está a parceria entre a multinacional Scania e a ComJovem. A empresa abriu suas portas para que os jovens executivos conhecessem seus processos e se propôs a ouvir as demandas e anseios da nova geração de seus clientes. Inovações como os caminhões que utilizam combustíveis menos poluentes e/ou oriundos de fontes que capturam dióxido de carbono (CO2) da atmosfera – biogás, gás natural, biodiesel, etanol em substituição ao diesel –; maior eficiência de queima e aproveitamento de energia da combustão para a diminuição da geração de monóxido de carbono (CO), óxidos de nitrogênio e enxofre (NOX e SOX) e material particulado (fuligem), além de menor consumo; veículos utilizando materiais mais avançados e leves que refletem em menor consumo de combustíveis, pneus e desgastes de peças; programas de pós-venda/manutenção de veículos com forte atenção no controle dos gases de escape entre outras iniciativas cativam a atenção da geração Y de empresários. Em paralelo, as mesmas soluções também visam trazer resultados financeiros positivos aos transportadores que não perdem o foco da rentabilidade econômica de seus negócios.

As parcerias nem sempre precisam ter um caráter nacional e/ou envolverem grandes projetos/recursos – o que pode acarreta maiores desafios e morosidade. No âmbito social, partindo da perspectiva de ações afirmativas, foi promovida pelo núcleo de Belo Horizonte juntamente com a Itaipú Scania a arrecadação junto aos seus colaboradores caixas de leite em pó para doar à AMR – Associação Mineira de Reabilitação – uma ONG que cuida de mais de 500 crianças carentes com paralisia cerebral. O projeto recebeu o nome “Uma Carga de Esperança” e, dessa forma, foi mostrado como juntos somos mais eficientes e agregamos maior valor à sociedade. O projeto teve uma expressiva repercussão social na esfera local, além de aumentar o Market Share das empresas participantes e da ONG perante a comunidade.

Por fim, ainda no campo social, mas também econômico e acompanhando o movimento do mercado em fomentar startups, a ComJovem Belo Horizonte criou recentemente o projeto “ComJovem P&D”. Esse projeto visa incentivar a pesquisa e desenvolvimento de inovações tecnológicas focadas na melhoria da logística e segurança do motorista, caminhão e ambiente ao seu redor. Queremos também abrir espaço para estudantes, microempresas e pequenas mostrarem suas ideias para as empresas do TRC. Os primeiros resultados já estão sendo obtidos como, por exemplo, o alavancamento da Truck Vision, uma startup de tecnologia formada principalmente por jovens que está em fase final de desenvolvimento e início de distribuição para clientes dos seus primeiros produtos tecnológicos: o clear vision e o retrovisor inteligente. Produtos que visão aumentar a segurança de qualquer veículo de carga, evitando acidentes e suas consequências sociais e econômicas.

Bem, voltando à minha experiência com a ComJovem, no primeiro semestre de 2016, nosso núcleo tinha como meta angariar novos membros de forma a conseguir criar uma equipe de alta performance para bater as metas da NTC& Logística. Conseguimos e fomos até destaque. Entretanto, ocorre que em meio de tantos encontros, visitas técnicas, ações sociais, destaque na mídia, começou a surgir novamente o seguinte questionamento: Qual o meu propósito na ComJovem? Na minha mente esse questionamento começava a ficar mais claro, mas ainda sim refletir sobre a dúvida e comecei a me perguntar: Porque você sempre está presente em nossas reuniões? Respostas:

I – Quero continuar levando as novas ideias e inovações para dentro da empresa. Sei que somente aqueles que tiverem flexibilidade a mudanças e possuírem empresas orgânicas perpetuaram;

II – Quero continuar a ver as boas práticas das empresas do grupo, disseminando o conhecimento e trocando experiências com os membros. Compartilhamos dos mesmos problemas e desafios do setor, portanto, nos unido teremos as melhores formas de solução;

IV – Quero que todos da minha geração que estão inseridos nesse setor tenham a mesma responsabilidade social e o desejo íntimo e genuíno em criar soluções sustentáveis;

V – Por fim, não perder nossa visão de propósito e ter muito claro em mente que sem nossas empresas não há economia que se sustente. Fazemos parte, então, de um dos alicerces da economia brasileira. Além do orgulho que devemos sentir, temos o peso de uma grande responsabilidade.

Após essa reflexão e muitas discussões com os demais membros do núcleo essas respostas deixaram de ser somente minhas, mas também de todos os membros da ComJovem Belo Horizonte e Região Metropolitana, mudamos o rumo do nosso núcleo. As metas da NTC& Logística se tornaram o básico que deveríamos fazer em prol dos benefícios que a associação nos proporciona e do que a sociedade espera de nós. Acreditamos também que conseguimos cumprir com o que o Sérgio esperava desse período da ComJovem e, queremos ir além. Para isso, foram criados novos projetos que o setor não se atentava até então:

I – “O Futuro Acredita Nesta Ideia”, selo de qualidade e sustentabilidade específico do transporte de cargas que está sendo desenvolvido junto com a FDC – Fundação Don Cabral, com a finalidade de criar barreiras para novos entrantes que competem de maneira desleal e irregular, manchando a reputação do setor.

II- “ComJovem Convida”, evento em que convidamos os empresários para conversarem com os jovens do núcleo sobre as questões que estão sendo mais debatidas no setor;

III- Parceria com o SEBRAE para aplicar o projeto LEAN nas micro, pequenas e médias empresas do nosso núcleo. Valendo destacar que esta é a primeira parceria entre o setor e o SEBRAE, o projeto tem a mesma filosofia da produção enxuta, eliminando o desperdício e melhorando a produção e qualidade ao mesmo tempo que visa a diminuição do tempo via ferramentas de gestão à vista e processos à prova de falhas;

IV- A parceria com Projeto CASA – Conversando Agora as Soluções do Amanhã – aonde fazemos uma mesa redonda com os políticos para debater melhorias para a sociedade que impactam no setor, como a mobilidade urbana;

V- Como já citado, o “ComJovem P&D”. A inovação vista como um dos pilares de sustentação para o crescimento e permanência no mercado;

VI- E o também anteriormente explanado “Uma Carga de Esperança”, um projeto social que visa demonstrar que o setor de TRC não é um predador do mercado.

Por fim, toda essas interações e novos projetos também nos trouxeram uma visão nítida que não somos só um núcleo da ComJovem, somos grandes amigos e parceiros com o objetivo de estreitar ainda mais os laços com as empresas da nossa cadeia de suprimentos que acreditam em nosso trabalho.

Ressalta-se, por fim, que ainda há muito que se debater e desenvolver. Observando um horizonte de mudanças de médio e longo prazo, montadoras de veículos pesados e transportadores tem se atendado para as tecnologias disruptivas que estão surgindo. De caminhões elétricos e/ou autônomos – sem condutor– (trucks.com, https://www.trucks.com/category/tech/autonomous-vehicles/), dirigíveis renascendo como um modal promissor para o transporte de carga (Dissertação: Dirigíveis: uma alternativa para o transporte de cargas especiais, Telmo Roberto Machry, UFRJ, 2005) drones de entrega de mercadorias (business insider, http://www.businessinsider.com/ups-tests-drone-delivery-system-2017-2) que podem ser tanto uma concorrência quanto uma oportunidade de investimento para as empresas; passando por aplicativos focados em logística de transporte de carga e chegando a ideias que mudam a concepção de produção de produtos – in casu – e logística de distribuição/cadeia de suprimentos com a impressão 3D (The Economist, 29/06/17 e 07/07/13); todas essas novidades vêm sendo desenvolvidas concomitantemente e em velocidade exponencial. A troca de experiência e as parcerias entre as diversas organizações deixam de ser apenas um diferencial competitivo e torna-se um imperativo para a longevidade das empresas do setor frente a essas mudanças que estão por vir. O papel da ComJovem – aqui então sua visão de propósito – e também dos sindicatos de transportadores torna-se ainda mais relevante.

Concluo afirmando, que um dos principais aspectos para a sustentabilidade, rentabilidade econômica e perenidade do transporte rodoviário de cargas no Brasil está na capacidade dos transportadores em demonstrar que suas empresas podem contribuir com a sociedade; que o transporte rodoviário é fundamental para o desenvolvimento da socioeconômico do pais – principalmente em razão da sua capilaridade –, merecendo, assim, um maior reconhecimento de sua importância e, por fim, que os veículos e a logística do transporte rodoviário tem evoluído para diminuir seu impactos ao meio ambiente. Para alcançar esses objetivos, frente às novas realidades e ao futuro que nos aguarda, é necessário o desenvolvimento de uma melhor sinergia entre gerações e a capacitação dos mais jovens em paralelo com a construção de um sentimento de propósito. Assim, nosso motor não é competir entre nós, mas sim uma colaboração mútua que, somada a vontade de criar e fazer algo maior que nós mesmo, pode transformar o futuro do setor por meio de projetos sustentáveis. Esse propósito tem sido o maior legado da ComJovem juntamente com a NTC.

Ana Luiza Magalhães Lobato

Ana Luiza Magalhães Lobato

Cargo Coordenadora da ComJovem BH e Região Metropolitana

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