Responsável por mais de 65% das movimentações comerciais no Brasil, o transporte rodoviário de cargas é um dos pilares da economia nacional. No entanto, esse protagonismo vem acompanhado de uma grande responsabilidade: o setor é um dos maiores emissores de gases de efeito estufa (GEE), especialmente o dióxido de carbono (CO₂), e enfrenta o desafio de se transformar diante das urgentes demandas ambientais.
Com a realização da COP 30 no Brasil, prevista para novembro, em Belém (PA), e a recente atualização da meta climática do país — que visa reduzir em até 67% das emissões líquidas até 2035 — o transporte de cargas se vê diante de uma encruzilhada: seguir operando como sempre ou liderar uma virada sustentável que impacte positivamente toda a cadeia logística.
Uma agenda ambiciosa e viável
De acordo com um estudo lançado recentemente pela Coalizão para a Descarbonização dos Transportes, uma articulação multissetorial formada por mais de 50 organizações públicas e privadas, o Brasil pode reduzir em até 70% as emissões do setor de transportes até 2050. O plano prevê a atuação em três frentes principais:
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Mudança na matriz de transportes: o objetivo é ampliar significativamente a participação de modais com menor impacto ambiental, como os sistemas ferroviário e aquaviário, elevando sua participação dos atuais 31% para 55% no transporte de cargas.
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Expansão dos biocombustíveis: a utilização de alternativas como biodiesel, diesel verde e SAF (combustível sustentável para aviação) deve ser intensificada em substituição aos combustíveis fósseis.
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Eletrificação da frota: incentivar o uso de veículos elétricos e híbridos no transporte de cargas, em especial nos centros urbanos, reduzindo a emissão de poluentes e o ruído urbano.
Segundo o relatório da Coalizão, essas medidas representam cerca de 60% do potencial de redução de emissões até 2050, sendo consideradas não apenas viáveis do ponto de vista técnico, mas também econômico.
Sustentabilidade na prática
Enquanto grandes planos de descarbonização ganham corpo em nível nacional, entidades como a Federação das Empresas de Transporte de Cargas e Logística do Nordeste (Fetranslog/NE) têm investido em ações práticas para mitigar o impacto ambiental da atividade. A federação orienta empresas e sindicatos filiados a adotarem medidas sustentáveis que já podem ser implementadas de forma imediata e acessível.
Entre essas iniciativas estão:
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Inserção da sustentabilidade nas metas empresariais como valor estratégico e operacional;
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Otimização de rotas, visando reduzir o tempo de viagem, o consumo de combustível e as emissões;
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Manutenção preventiva rigorosa da frota, para garantir maior eficiência energética e segurança;
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Instalação de tecnologias para controle de emissão, como filtros e catalisadores em veículos a diesel;
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Investimento em veículos de baixo carbono, como caminhões movidos a biocombustíveis ou energia elétrica;
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Parcerias com fornecedores e operadores logísticos alinhados com práticas sustentáveis;
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Uso de embalagens ecológicas, que reduzem o peso e, consequentemente, o consumo de combustível.
Ganhos ambientais e competitivos
A adoção dessas práticas não apenas contribui com as metas ambientais globais e nacionais, mas também gera benefícios diretos para as empresas. A redução de custos operacionais, o cumprimento antecipado de regulamentações ambientais e o fortalecimento da imagem da empresa junto ao mercado e aos consumidores são algumas das vantagens percebidas.
Além disso, os clientes estão cada vez mais atentos às práticas socioambientais das marcas com as quais se relacionam. Ter uma operação mais limpa e responsável pode, em breve, deixar de ser um diferencial e se tornar um requisito básico para a competitividade no setor.
