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DETERMINANTES DE DESEMPENHO NA GESTÃO DE CUSTOS NO TRANSPORTE RODOVIÁRIO DE CARGAS: UMA ABORDAGEM ECONOMÉTRICA

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                                                                              Por Carlos Augusto Silveira e Herbert Kaiser

 

A gestão do Transporte Rodoviário de Cargas (TRC) é uma das atividades logísticas mais críticas e, ao mesmo tempo, mais desafiadoras no cenário econômico, especialmente em países de dimensões continentais como o Brasil. Longe de ser uma operação puramente reativa, focada apenas em “apagar incêndios”, a gestão moderna do TRC evoluiu para uma disciplina estratégica que exige um nível sem precedentes de sofisticação, conhecimento técnico e habilidades analíticas dos seus gestores.

A complexidade desta gestão é multifacetada, ou seja: versátil, complexa, multiforme, diversificada, abrangente e polivalente. O gestor de transporte opera em um ambiente de alta volatilidade e pressão constante, onde precisa equilibrar variáveis muitas vezes antagônicas: a precariedade da infraestrutura viária, a complexa legislação tributária e trabalhista (como a Lei do Motorista), os riscos operacionais (roubos de carga, acidentes), a instabilidade jurídica e a concorrência acirrada de um mercado pulverizado.

No entanto, entre todas essas variáveis, nenhuma é tão crítica quanto a gestão de custos. É neste ponto que a complexidade da operação se materializa financeiramente, e é onde a competência do gestor é posta à prova de forma definitiva.

O setor de TRC é notório por suas margens de lucro apertadas. Um erro de centavos no cálculo do custo por quilômetro rodado pode rapidamente erodir a rentabilidade de toda a operação. O desafio não está apenas em controlar os custos visíveis, mas em compreender profundamente a estrutura de custos e seus determinantes.

Aqui, a habilidade do gestor se desdobra em várias frentes:

  • Domínio sobre Custos Fixos e Variáveis: O gestor precisa de um conhecimento profundo para identificar e ratear corretamente os custos fixos (depreciação da frota, salários, seguros, impostos como IPVA) e os custos variáveis (combustível, pneus, manutenção, pedágios). A maior falha na precificação do frete geralmente reside na subestimação ou no desconhecimento desses custos.
  • Gestão da Volatilidade: O diesel é, indiscutivelmente, o principal vilão e o componente de maior peso. Seu preço é volátil, atrelado a políticas de preço internacionais e câmbio, fugindo totalmente ao controle do gestor. A habilidade aqui não é controlar o preço, mas antecipar seus impactos, criar estratégias de compra, otimizar o consumo (através de treinamento de motoristas e roteirização) e ter agilidade para repassá-lo ao preço do frete.
  • Habilidade Analítica e Tecnológica: A era do “caderninho” e da gestão baseada na intuição acabou. O gestor moderno precisa de habilidades analíticas para extrair valor de dados. É necessário domínio de ferramentas como Sistemas de Gerenciamento de Transporte (TMS) e telemetria. Esses sistemas não servem apenas para rastrear o caminhão; eles geram dados vitais sobre consumo de combustível, estilo de condução, tempo de ociosidade e necessidade de manutenção.
  • Visão de Custo x Investimento: Uma das habilidades mais específicas é diferenciar um custo de um investimento. O gestor inexperiente vê a manutenção preventiva ou a renovação de pneus como “gastos” a serem adiados. O gestor qualificado entende que esses são investimentos cruciais para evitar custos corretivos muito maiores no futuro (um caminhão quebrado na estrada), que geram não apenas o custo do conserto, mas o custo da indisponibilidade, da perda do frete e do dano à reputação do cliente.

A complexidade do TRC transformou o papel do gestor. Ele deixou de ser um supervisor operacional para se tornar um analista financeiro e estratégico focado em otimização. O sucesso no setor não é mais medido apenas pela pontualidade da entrega, mas pela eficiência com que cada real é alocado. Dominar a gestão de custos não é, portanto, apenas um diferencial competitivo; é a própria condição de sobrevivência no transporte rodoviário de cargas.

Gestão econométrica dos custos operacionais

O termo “gestão econométrica dos custos operacionais no TRC é uma abordagem avançada de gestão. Significa utilizar modelos econométricos (estatística aplicada à economia) para tomar decisões estratégicas sobre os custos no Transporte Rodoviário de Cargas (TRC).

Em vez de simplesmente registrar os custos que já aconteceram (como na contabilidade tradicional), essa abordagem busca entender o que causa a variação desses custos e prever como eles se comportarão no futuro.

Importante citar que a gestão de custos tradicional no TRC muitas vezes se baseia em:

  • Médias simples: Calcular um “custo médio por km rodado”.
  • Intuição: “Acho que este mês gastamos mais com pneus por causa das chuvas.”
  • Reação: Olhar o balanço no fim do mês e ver que o custo do diesel subiu, e então tentar repassar isso ao cliente.

Mas a questão é que os custos do TRC são extremamente complexos e voláteis (diesel, pneus, manutenção, pedágios, salários, etc.). Uma simples média não diz por que o custo mudou ou qual fator teve o maior impacto.

A solução exige uma Abordagem Econométrica, ou seja, aplicar métodos estatísticos para criar um modelo matemático que explica os custos operacionais. O objetivo é responder perguntas como:

  • Se o preço do diesel subir75%, qual será o impacto exato (em R$) no meu custo total?
  • Quantos reais a mais eu gasto em manutenção para cada 1.000 km a medida que o caminhão vai envelhecendo?
  • Qual é o impacto de andar em estradas ruins (tipo de pavimento) versus estradas pedagiadas no custo de pneus, combustível e manutenção?
  • Quanto o peso da carga (tonelada) realmente influencia o consumo de combustível?

Uma gestão econométrica dos custos no TRC, vai nos dizer qual o “peso” ou a importância de cada um desses fatores. A gestão se baseia em três pilares principais:

  • Análise de Determinantes: O primeiro passo é usar a econometria (como a análise de regressão) para identificar e quantificar os principais fatores (determinantes) que afetam os custos.
  • Variável Dependente (o que se quer explicar): custo Operacional (em R$ por km, por viagem, por tonelada ou por hora).
  • Variáveis Independentes (os determinantes): a – preço do diesel; b – idade da frota; c – tipo de carga (perecível, perigosa, granel); c – distância percorrida; d – peso transportado; e –  tipo de pavimento da rota; f – número de paradas (entregas); g – tempo para carregar e descarga; h – velocidade média do caminhão carregado e vazio.

Assim que o gestor obter esse modelo, ele pode parar de “adivinhar” e começar a “simular”. Por exemplo: “Estamos planejando uma nova rota de 1.500 km com um caminhão e semi reboque de 6 eixos, de 5 anos de idade, viagem com carga de 27 toneladas, velocidade média de 65 Km por hora e rodovia considerada boa. De acordo com o modelo matemático, obtido através do plano de regressão linear múltipla, e com o preço atual do diesel, o custo esperado dessa operação é de R$ 4.900.”

Se o diesel subir 7% no meio do contrato, o modelo econométrico vai mostrar que o custo da viagem subirá para R$ 5.300.”

Otimização e Tomada de Decisão

Agora vem a parte mais importante de uma boa gestão, pois com os dados dos modelos, o gestor pode tomar decisões estratégicas para otimizar os recursos, como:

  • Precificação (Formação do Frete): Calcular o preço do frete com base em custos previstos e reais, garantindo a margem de lucro, em vez de usar apenas o preço de mercado (que pode estar abaixo do seu custo real).
  • Renovação de Frota: O modelo pode mostrar o “ponto ótimo” em que o custo de manutenção de um caminhão antigo se torna tão alto que é mais barato comprar um novo (considerando a depreciação e manutenção).
  • Seleção de Rotas: Escolher entre uma rota mais curta com pavimento ruim e uma rota mais longa com pedágio, com base no impacto total (combustível + pneus + manutenção + pedágio) que o modelo previu.
  • Controle de Eficiência: Comparar o custo real de uma viagem com o custo “previsto” pelo modelo. Se o custo real foi muito maior, o gestor sabe que houve um problema (ex: motorista dirigindo de forma ineficiente, problema mecânico) e pode investigar a causa raiz.

Resumindo, afirma-se que a gestão econométrica dos custos operacionais no TRC é a evolução da gestão de custos. É trocar a intuição e as médias simples por uma gestão baseada em dados e modelos estatísticos, permitindo que o gestor entenda profundamente seus custos, preveja cenários e tome decisões muito mais precisas e lucrativas.

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