Material colocado no sistema de combustão consegue reter parte do CO₂, que pode ser regenerado e reutilizado por várias indústrias
Pesquisadores da UFMG desenvolveram um material capaz de filtrar o dióxido de carbono (CO₂) produzido pelo sistema de combustão de caminhões. Nos últimos testes realizados, o material foi capaz de capturar entre 7,7% e 17,2% de CO₂. A pesquisa, realizada ao longo dos últimos 20 anos nos laboratórios do Departamento de Química da UFMG, conta com o apoio de grandes empresas e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig).
De acordo com Jadson Cláudio Belchior, professor do Departamento de Química da UFMG e coordenador da pesquisa, esses índices foram alcançados em situações reais de circulação, em testes realizados em campo – não apenas em laboratório. Durante os testes, um caminhão percorreu cerca de 170 quilômetros, passando por trechos rodoviários, urbanos e rurais, em um trajeto de cerca de três horas e meia. A captura de 7,7% foi alcançada na circulação total do trajeto; a de 17,2%, no percurso urbano.
Segundo ele, o mais importante, que é o material desenvolvido, está bem estabelecido. E, agora, o próximo passo será ajustar o controle da temperatura para o gás interagir corretamente com o material cerâmico e ter maior eficiência de captura. “Às vezes, a temperatura do gás está fora da temperatura ótima de captura, que é na faixa de 100°C”, diz. “Se esse controle já tivesse acontecido, a gente teria capturado muito mais, na faixa de 27% a 35% de CO₂”, afirma.
“Seria muito legal se a gente tivesse investimentos para poder, até o final do ano, gerar um protótipo que pudesse ser usado lá na COP 30. Porque, na verdade, falta muito pouco. Engenhar no reator onde colocar o material para capturar, colocar o controle de temperatura e colocar no caminhão. É um passo muito pequeno para uma indústria que a gente tem hoje aí disponível”, vislumbra.
Para o assessor jurídico-ambiental do Sindicato das Empresas de Transportes de Cargas e Logística de Minas Gerais (Setcemg), Walter Cerqueira, o trabalho desenvolvido na UFMG é um passo muito importante para ajudar a mitigar os efeitos do aquecimento global. “O Setcemg vê com muito bons olhos o aumento das tecnologias que visam diminuir a emissão de gases de efeito estufa, como o CO₂. Estamos muito satisfeitos de ver a ciência mineira apresentando soluções que vão ao encontro das necessidades de sustentabilidade enfrentadas por toda a sociedade”, diz.
O assessor pontua que o transporte de cargas em Minas entende a importância de contribuir com a diminuição do aquecimento global. “Os transportadores fazem investimentos expressivos em sustentabilidade, tais como modernização da frota, substituição de combustíveis e treinamento em direção segura e ecoeficiente”, cita Cerqueira.
Como funciona, na prática, o material desenvolvido?
A captura do dióxido de carbono depende da instalação de um reator diretamente nos caminhões. Nesse reator se armazena o material absorvente – esferas de cerca de um centímetro de diâmetro – que realiza uma reação química com o gás quando ambos entram em contato em determinada temperatura.
Assim, à medida que o caminhão vai circulando e seu sistema de combustão libera CO₂, o material faz a captura desse gás, impedindo que ele seja remetido à atmosfera. Retido, o gás pode ser regenerado e reutilizado controladamente pelas várias indústrias que se valem desse insumo, como a química e a de alimentos.
Durante os testes, os pesquisadores usaram uma metodologia de medição de CO₂ já existente na Europa e ainda em processo de homologação no Brasil para uso na indústria. Chamada de Real Driving Emissions (RDE), a metodologia permite que essa medição seja feita em condições reais. A equipe uniu a metodologia com a tecnologia de captura de Co2 para realizar os testes na rua.
“Até então, medições desse tipo eram todas feitas em laboratório, onde o veículo e seus parâmetros, como a rotação e o torque do motor, são monitorados e bem controlados. Com a RDE, o veículo sai efetivamente para a rua, o que possibilita alcançar um resultado mais condizente com as emissões reais de seu uso”, explica o professor Jadson Belchior.
A pesquisa sobre esse produto começou em 2007. Na época, os pesquisadores fizeram o primeiro depósito de patente relacionado a um material cerâmico capaz de capturar CO₂. Na época, esse material fazia a captura em uma temperatura de cerca de 600ºC, o que já era considerado um avanço.
Entre 2015 e 2018, quando empresas como a Petrobras e a Fiat [hoje Stellantis] se envolveram no financiamento do projeto, o material foi aprimorado, e a captura do CO₂ foi possível em temperaturas de cerca de 300 ºC.
Em 2021, um novo projeto, em parceria com o Instituto Nacional de Tecnologia (INT) e com uma indústria de veículos, foi preparado. Em 2022, ele foi contemplado com recursos do Programa Rota 2030 – Mobilidade e Logística do Governo Federal, que fomenta o desenvolvimento do setor automotivo do país. Esse novo projeto foi o que possibilitou alcançar os atuais percentuais de captura do gás, com uma temperatura de 100°C, ideal para a captura do gás. “Do ponto de vista industrial, do ponto de vista tecnológico e do ponto de vista energético, é muito importante ter essas temperaturas de captura mais baixas”, diz.
Patente
Atualmente, a tecnologia aguarda o registro do mais recente pedido de patente, realizado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) no dia 23 de janeiro. Desde 2007, quando iniciaram as pesquisas, cerca de 20 patentes foram registradas no Brasil e nos EUA, para estabelecer as propriedades industriais dos avanços parciais que, relacionados ao invento, foram sendo alcançados. Algumas dessas inovações dizem respeito, por exemplo, ao aumento da resistência mecânica do material, que hoje já é capaz de operar em vários ciclos de captura e regeneração do CO₂.
Fonte: Jornal O Tempo/jornalista Raissa Pedrosa
