O transporte rodoviário de carga continua sendo o modal dominante, o mais importante e essencial para a distribuição de mercadorias, pela sua flexibilidade, agilidade e capilaridade, responsável pelos avanços da ocupação territorial e pelo crescimento e desenvolvimento econômico e social do País.
Vivemos uma forte pressão nos custos e na disponibilidade de mão de obra, principalmente motoristas.
Temos uma infraestrutura precária, com manutenção insuficiente, que aumenta nossos tempos de viagem, derruba a produtividade e eleva os custos com combustível e com a manutenção dos veículos, obrigando-nos a investir em um número maior de veículos nas operações.
Há congestionamento logístico, com vias urbanas congestionadas e terminais saturados, gerando maior tempo de viagem e atrasos nas operações de carga e descarga.
Temos falta de segurança em todo o País, com roubos e furtos de mercadorias e até de componentes dos veículos, causando enormes prejuízos às empresas e embarcadores, agravando os custos com seguro e tornando obrigatórias medidas adicionais para que as mercadorias cheguem ao destino.
Estamos vivendo um envelhecimento da nossa força de trabalho, com escassez de mão de obra e alta rotatividade, sem condições de oferecer salários atrativos e compatíveis para enfrentar a concorrência de outros segmentos.
Nossa frota está velha, tecnologicamente atrasada, ineficiente do ponto de vista energético e ambiental, reflexo da incapacidade de renovação e modernização.
Para agravar ainda mais a situação, enfrentamos burocracias, regulamentação complexa e uma carga tributária das mais elevadas do País.
As condições de trabalho e saúde dos motoristas são precárias, pela falta de áreas de descanso seguras, limpas e com oferta de alimentação adequada, agravadas por uma legislação que, além da insegurança jurídica, não permite ao motorista trabalhar com liberdade.
Na maioria dos embarcadores e destinatários das cargas, falta infraestrutura de apoio, como estacionamentos para caminhões, áreas de convivência e, principalmente, banheiros que atendam homens e mulheres.
Além da falta de estrutura, há uma demora excessiva nas operações de carga e descarga por parte dos embarcadores, dificultando o dimensionamento da frota e o planejamento das jornadas de trabalho.
Temos uma volatilidade nas tarifas de frete, com práticas de preços predatórios, fragilizando as empresas, fomentando a informalidade e aumentando os riscos de acidentes nas estradas.
Estamos nos tornando “bancos”, financiando nossos clientes, aceitando prazos superiores a 180 dias, sem conseguir junto aos fornecedores prazos compatíveis, além de pagarmos antecipadamente mão de obra e impostos.
Não acharemos culpados para esta situação; iremos encontrar apenas um: nós mesmos, os transportadores. E, para podermos sair desta situação, o que fazer?
Algumas providências e ações podem e devem ser iniciadas: Precisamos recusar os fretes abaixo dos custos e riscos. Quando aceitamos fretes apenas para sobreviver, queimamos caixa, abrimos mão da renovação de frota e das melhores práticas de segurança.
Precisamos ter noção dos custos reais e dos riscos envolvidos nas operações. Precisamos definir tarifa mínima com base no custo real de cada uma delas.
Temos que exigir nossos direitos e não “abrir mão” do cumprimento das leis, tais como: limite de 5 horas no tempo de carga e descarga, pagamento do pedágio pelo embarcador, seguro contratado pelo transportador com os custos repassados integralmente. Temos que fazer valer as leis.
Não devemos e não podemos expandir a frota ou aumentar nossa capacidade sem termos contratos que nos deem segurança, garantam os investimentos e assegurem volume compatível com a frota envolvida.
Fundamental: precisamos aprender a dizer não. Não aceitar fretes colocados com base em leilões ou concorrência, que, na maioria das vezes, passam a ser referência de preço, mas não de atendimento nem de qualidade.
Neste momento, o papel de nossas instituições e sindicatos é essencial e necessário para mostrar nossas dificuldades aos órgãos governamentais e, principalmente, para dar início a ações e campanhas junto aos embarcadores e consumidores, mostrando que o setor de transporte de carga está se tornando inviável, e que isso futuramente será “um tiro no pé” por inviabilizar a distribuição da produção e elevar substancialmente os custos logísticos do País.
Nossas instituições precisam trabalhar em conjunto e com temas mais alinhados:
- a) Reivindicar junto ao governo melhorias constantes e significativas na nossa infraestrutura rodoviária;
b) Criação de políticas que possibilitem renovação de frota, reduzindo a idade média da frota nacional;
c) Combate mais efetivo ao roubo de cargas;
d) Regulamentação de prazos máximos de pagamento e cláusulas abusivas nos contratos de prestação de serviços de transporte;
e) Avaliar a continuidade da tabela de frete mínimo, que está se consolidando como referência, sem avaliar detalhes e especificidades de cada operação;
f) Responsabilização dos embarcadores pelas contratações de prestadores de serviço não regulares, por acidentes, roubos, multas e não pagamento de impostos;
g) Lutar pela aprovação de uma lei criando regime especial para a profissão de motoristas de viagens, similar ao que existe para trabalhadores em plataforma, maquinistas e pilotos de avião.
Fica evidente a necessidade de estarmos unidos, fortalecendo nossas instituições, participando das discussões e cobrando as ações institucionais para que possamos ter garantias de que um setor tão importante seja viável e atrativo para os agentes financiadores.
Se não começarmos a nos mobilizar “agora”, deixaremos de ser transportadores para nos tornarmos “transportados”, e só esperamos que não seja para o fim.
Atenciosamente,
Antonio Luis da Silva Júnior
